10 de jan de 2012

ZELIG (1983)




            Para quem está acostumado com talento e poder de fazer cinema do grande diretor Woody Allen, agora tem a disposição um dos melhores documentários já fabricados pela indústria cinematográfica. Se documentário é a amostra de uma passagem da vida, amostra de imagens, resumo de um período, um momento do passado fossilizado em imagens, este trabalho de Allen é simplesmente tudo isso e mais. Ele consegue expor para nós a vida de um homem com um problema de personalidades, e nos fazer delirar com momentos cômicos e melancólicos e tudo que se passa na vida de uma pessoa como Leonard Zelig.

            Com belas imagens de uma Manhattan da década de 20, este diretor vai encaixando dias após dias para formar a vida de Leonard Zelig para o pôr nas telas. Com imagens restauradas e passagens simuladas com atuação do próprio diretor, ele consegue retratar a vida de alguém com perfeição, fazendo-nos acreditar em alguns momentos que ele atuando seria o próprio camaleão. Os sons apresentados também são muito bons, visto que devem ter recebido um belo trabalho para que pudessem ser utilizados no filme, e apesar da baixa qualidade, nos dão informações, que ligadas as imagens que formam o documentário, dá novamente vida ao protagonista de um dos casos mais instigantes da medicina.

         Neste documentário que tem como objetivo mostrar a vida do homem camaleão, nós também podemos ver como era já na década de 20 a sociedade americana e as pulsações do coração do capitalismo. Com a eminência de um personagem que despertaria a atenção de todos, surge a oportunidade de fazer dinheiro explorando a imagem de um homem, que na verdade precisaria de uma preocupação maior com um possível tratamento para buscar sua “cura”, e não na exposição desnecessária de sua imagem como mero entretenimento. Foi, em prol do dinheiro, lançado pela Warner Bros um filme sobre sua vida chamado “The Changing Man” de 1935 e até musicas em referindo-se a ele como a canção “You May Be Six People But I Love You”. A própria Irmã com o cunhado fizeram isso, personificando o sentimento americano, aflorado e dominado pelo capitalismo, capaz de vendar até a imagem do irmão, expondo seu problema de personalidade.

            Assim temos mais um ótimo trabalho de Allen, agora como documentarista, para enriquecer o mundo do cinema. Este filme não vem para bater de frente com os outros filmes que foram feitos para mostrar a vida do camaleão, vem para somar. Se já não bastasse tanto talento aplicado ao trabalho, ele ainda consegue colocar doses de humor e inteligência, para deixa-lo ainda mais interessante. Este sem dúvida vai ficar para os anais do cinema moderno como um genuíno trabalho de documentar a vida, fazê-la parar no tempo e prendê-la na nossa mente, através das telas do cinema.

Título original: Zelig
Título no Brasil: Zelig
Ano de lançamento: 1983
Diretor: Woody Allen



           Ficaria para os anais do cinema, se este não fosse um pseudodocumentário. Neste o talento de iludir e convencer de Allen vai além do que é esperado. Em vários momentos do filme você se perde e é levado a crer que aquilo realmente existiu. As imagens em preto e branco com baixa qualidade e imagens coloridas com sons modernos, é que dão o toque documentarista do filme, quase lembrando uma produção de guerra neste mesmo gênero. É justamente esta contraposição de momentos é que dão credibilidade ao que está sendo apresentado. E vou além. Esta contraposição é uma pequena amostra do que foi e do que é e as transformações que o cinema sofreu. Quando abordamos a parte dos sons o trabalho fica ainda mais diferenciado. Justamente pela qualidade nas imagens modernas e o evidente desgaste que o tempo fez as vozes, é que completam o tom de documentário do filme, ou de falso documentário com características do real. As interpretações de quem prestou os falsos depoimentos estão impecáveis.

         Leonard Zelig é um homem simples, de uma família não muito padrão, único que de certa forma conseguiu alguma ascensão social.     Mas o que chama atenção neste homem é a sua facilidade com que assume a personalidade de outras pessoas, conseguindo o feito até de se transforma fisicamente. Após passar por um tratamento que o faz ir ao extremo da personalidade, sendo rude e muito sincero, ele consegue finalmente se “curar” do seu problema e ser uma pessoa normal. Ele assumia esta postura na busca de uma aceitação da sociedade. Como se sentia rejeitado, ele acreditava que assumindo a personalidade das outras pessoas era mais seguro e poderia ser querido e amado por todos. Ai temos um mal da sociedade moderna. Em vários momentos as pessoas querem ser alguém que não elas mesmas, fazendo com que elas renunciem a suas próprias identidades. Assim é a sociedade americana e o resto do mundo, vivendo de aparência e consumindo cada vez mais para ser alguém que eles querem que ela seja, mas ninguém sabe quem. 


         A vida de Zelig começa a mudar quando começam a aparecer algumas supostas esposas e filhos, assunto que logo chega à opinião pública e destrói sua popularidade. O fato é que ele era famoso pelo seu problema psicológico, que a sociedade tirava entretenimento e dinheiro, mas quando sua vida é exposta um pouco mais profundamente, vista pela ótica moralista e conservadora da sociedade, ele começa a ser visto de forma negativa. Esta é mais uma crítica ao modelo americano de sociedade, onde as pessoas, mesmo as populares, quando expostas mais a fundo para uma população hipócrita e julgada e condenada. Não importa o quão boa a pessoa foi ou o que ela faz de bom. Qualquer característica que a sociedade condene, com base em valores diversas vezes errados, condena também o homem.

             Para finalizar a desmistificação que Allen faz da sociedade americana, há uma cena em que Zelig dá uma mensagem para as crianças, dizendo que elas devem ter personalidade, não devem se importar em ser o que os outros querem que elas sejam, e para que falem tudo que pensam, não em outros países, mas na América, porque este é o modelo americano. Aqui é a clara a controvérsia entre a mensagem e a personalidade de Zelig, alguém que para defender, conquistou uma habilidade de poder se “camuflar” como um camaleão dentro da sociedade, com o intuito de fazer parte do todo, esquecendo quem ele era. O paradoxo criado entre a mensagem e a sociedade americana é nítido, uma vez que os Estados Unidos é um país, como quase todos os outros, que ostenta e valoriza a imagem, se esquecendo dos valores de ser quem é. Essa valorização é justamento o paradoxo criado pelo diretor na criação do personagem e a sociedade que vive.

           Assim é o falso documentário criado por Woody Allen para falar de uma personalidade que não existe. Personagem este que representa os valores da sociedade atual em detrimento aos valores a as identidades. Para quem é fã de Allen, esta é a oportunidade de vê-lo em diferentes formas como chinês, gordo e até negro. A mensagem do filme é muito clara. Cai as máscaras da sociedade e o que sobra é a pura hipocrisia na sua forma mais genuína: conservadora e moralista. Assim é conduzido este maravilhoso trabalho de construção de uma personalidade. Se o caso de Zelig não fosse tão estapafúrdio, certamente nós acreditaríamos totalmente na história, e este é o belo trabalho desenvolvido pelo diretor, que consegue fazer parecer real aquilo que é quase uma ficção. Allen consegue no sentido literal da palavra fotografia, congelar no tempo a história deste homem, que não existiu, mas que por força do talento nos faz acreditar na sua existência, nos covence e nos diverte. Cinema é feito de imaginação. É a arte de se deixar sonhar.

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