29 de dez de 2011

MELINDA E MELINDA (2004)


Por Marcel Moreno

              Este filme é onde Woody Allen brinca com a vida, assim como quem escreve um roteiro para um filme. Nele podemos notar a intenção do diretor de poder dar rumos diferentes a uma vida, de acordo com alguns acontecimentos inesperados que vão aparecendo, suas vontades e desejos e, sobretudo, e muito importante, a partir da personalidade de cada uma.  Assistir esta obra é quase ver dois filmes ao mesmo tempo. Você vai viajando pelas histórias das personagens e vai saboreando suas escolhas, possibilidades, rumos na vida, amigos, relacionamentos e perspectivas. Apesar de duas personagens com praticamente a mesma história, sendo as mudanças pequenas nuances características de cada Melinda, e com as suas próprias personalidades, podemos encarar uma história totalmente ambígua, porque tudo depende do ponto de vista. O segredo de ver o filme é talvez o abuso do diretor quanto ao modo de fazer com que cada telespectador sinta algo em cada momento.
Talvez para você a parte dramática seja a comédia, e talvez a comédia o drama, isso porque talvez nós rimos dos nossos medos, medos dos rumos e da não possibilidade de termos uma segunda chance. Essa comedia romântica leva você ao universo complexo das pessoas e dos seus relacionamentos. Não dá para encarar as Melindas como simples personagens diante de um arsenal de características intrínsecas a cada uma, que vão bombardeando as percepções de quem estão diante da película, faz com que a cada instante você possa entender uma Melinda como uma nova personagem, que começou nua e que vai ganhando características e sendo encorpada a cada cena e segue ganhando uma história.

                No filme há uma Melinda que era casada com um médico e tinha alguns filhos. Começou a ter um caso com um fotógrafo, que acabou assassinando quando descobriu que este tinha uma amante. Perdeu a guarda dos filhos e ficou sem a possibilidade de vê-los por conta dos processos do marido, que muito bem relacionado, garantiu feito. Ficou internada em uma clínica psiquiátrica por um tempo para se reabilitar. Sem esperanças, aparece um dia na casa de uma antiga amiga para tentar um segunda chance, ou algo parecido. Sem perspectivas de futuro, se aventura em relacionamentos indicados pelas amigas, com o intuito de tentar viver novamente um amor.



                A outra Melinda, é uma mulher que acabou na casa da vizinha, por conta do uso de algumas pílulas que a fez passar mal. Conheceu sua nova amiga no hall de escada do prédio que as duas moravam, justamente no momento que a vizinha voltada as pressas do mercado onde foi buscar Whisky. Melinda estava chorando e foi indagada pela vizinha de o porquê, que de pronto respondeu que não era nada que importasse. Pouco tempo depois, com um pouco de coragem, bateu a porta desta mulher por não estar se sentindo bem e foi acolhida como amiga pelo grupo. Melinda fora casada e traída pelo marido. E em uma aventura amorosa feita por remorso, acabou sendo traída também pelo amante fotógrafo. Desiludida, estudou arte e estava à procura de um novo emprego em uma galeria de arte para poder recomeçar sua vida.



                Verificando cada Melinda e suas características unas, veremos que cada uma além de características peculiares, escolheu um rumo diferente para sua, a fim de conseguir um rumo menos tortuoso para seguir a vida. Uma Melinda era totalmente descontrolada, chegando a tentar cometer alguns suicídios. Era sempre pessimista, sensacionalisando todos os fatos e levantando sempre as possibilidades mais negativas. É hipocondríaca, e como se não bastasse, tem indícios de depressão, além de viver para encontrar defeitos em si mesma. Em quase todo o tempo é melancólica, a ponto de deixar extravasar suas inseguranças e medos. Nada interessante, ela acredita que o seu relacionamento que não deu certo é o assunto mais importante a ser ressaltado, dando pistas de que não conseguiu se livrar por inteiro do seu passado. A outra Melinda é interessante, é esperta, é astuta, sutil e inteligente. Faz qualquer um se apaixonar com suas dedilhadas no piano. Ponderada, sabe encontrar o momento certo para tomar suas decisões, e apesar de pouco ousada, sabe agir na medida. Alem de várias qualidades, é sofisticada, o que ressalta ainda mais sua beleza. Sua forma simples e singela mostra uma mulher que não deixa seu passado dominar seu presente, o que a deixa disposta e entusiasmada para perseguir um novo rumo, um novo amor. Não obstante, esta Melinda é uma mulher normal como todas as outras – e vale lembrar que nenhuma mulher é simples na sua definição e nunca será fácil entende o que passa em seu âmago – e o que a deixa tão leve é justamente sua personalidade meiga e seu anelo disfarçado e sem pressa.


                 Para quem olha para as personagens, percebe claramente que os rumos de suas vidas são reflexo de suas escolhas, aproveitamento de oportunidades e personalidades. A beleza da criação destas personagens é que mesmo sendo diferentes, são seres humanos, e como todos os outros, elas tem um pouca de cada, e todos tem um pouco das duas. Se Melinda encara os fatos com elegância e jogo de cintura, Melinda age sem pensar, acreditando nas suas razões e emoções, sem ponderar nada. A jogada está justamente em fazer pensar que se você julgar uma feliz e AL outra infeliz, é parar e pensar os passos que elas deram até aquele momento. Não se perca no presente, porque o passado influencia no presente, e apesar de o passado ser um acontecido passado, deve ser levado em consideração, o que não faz com que elas percam as esperanças, mas cada uma age de uma forma. A ligação com o passado está no que aprendemos com os erros e acertos, e tentarmos sermos alguém melhor sempre.



                Suas conhecidas tem maridos, também diferentes entre si, que define um pouco o lado masculino da trama. A brincadeira de Woody Allen com eles são as possibilidades de influenciar dos maridos e dos homens que aparecem aos poucos, ou em outras palavras, uma jogada que pode dar certo, depende da sua escolha de quem você quer para o seu futuro e como você se relaciona com eles. Referentes aos maridos, ambos são atores e almejam um emprego. Enquanto um se esconde na possibilidade de atuar no filme da esposa diretora, deixando de ser ousado, o outro é audacioso e busca por uma vaga de grande porte. O primeiro homem acaba se apaixonado por uma das Melindas, mas luta incessantemente contra os seus desejos, apesar de morrer de ciúmes da moça, para que seu casamento não seja destruído por uma paixão repentina, desejando que tudo pudesse ser resolvido com seus anseios saciados e seu casamento fortalecido, sendo um personagem com características mais afeminadas, não nos trejeitos, mas no papel que ele exerce dentro no relacionamento. O outro, apesar de possuir uma esposa maravilhosa, não dá valor a ela, e a trai, sem respeitar seu casamento ou a figura da mulher. Aqui podemos perceber a dualidade da figura masculina. Mesmo que um deles pareça exercer o papel do homem na sua relação, este não é puramente masculinizado, visto que se rende facilmente aos encantos femininos, e a traição ocorrida é ligada com a falta de respeito e a figura da mulher e a falta de compromisso com seu relacionamento, conforme citado anteriormente. Enquanto a sociedade prega que todos os homens traem como é um dos casos, o primeiro marido exposto, apesar de não ser correspondido na cama pela mulher, respeita-a e é comprometido com seu relacionamento, colocando em cheque seus sentimentos e desejos, que poderiam ser apenas um calor repentino e passageiro ou não. Este se apaixona por Melinda pela forma como ela o trata e sua atração não está ligada diretamente somente ao sexo. O segundo, sem dar a mínima para qualquer sentimento, que se mostra em determinados momentos do filme duvidoso em relação à esposa, a trai sem nenhum remorso, fazendo jus a imagem do homem garanhão e insensível a relacionamentos, mas que se choca ao desconfiar que a esposa está tendo um caso com outro homem.

                A figura das esposas também possui uma dualidade. A esposa, que aqui toma o lugar do homem, é uma diretora de filmes em busca de patrocínio para o seu trabalho. Esta não valoriza tanto relacionamento, colocando seu trabalho sempre como prioridade, deixando diversas vezes o marido de lado, e não corresponde as vontades incitadas pelos desejos puramente fisiológicos do parceiro. A outra esposa é professora de música, o que o marido acha que é um desperdício de talento. Doce e meiga, adora o marido e o ajuda muito, e isso a faz carente, uma vez que ele não corresponde da mesma forma toda a dedicação da mulher. Ela sempre procura fortalecer o relacionamento tentando agradar o marido e usa de comprar exageradamente para aliviar algumas deficiências. Ambas a esposas são de certa forma dominadoras no seu relacionamento, embora uma tem um gral maior e outra menor.

                Os relacionamentos do filme são praticamente todos conturbados, e a respostas é porque ou as pessoas não sabem o que querem ou deixam de querer aquilo que queriam, por culpa do parceiro, por culpa do próprio destino, ou por culpa de ninguém, apenas mudou o ponto de vista. A traição é a pior saída para qualquer relacionamento, porque destrói o parceiro e, se a parte culpada tiver um pouco de valores, também sai ferida. Que relacionamentos não são fáceis todo mundo sabe, mas a beleza do filme está justamente em mostrar como vemos as coisas. Estas ideias duplas do relacionamento é que leva o telespectador a se pôr no lugar dos personagens, e tentar a todo instante pensar em uma outra possibilidade. A jogada com as duas Melindas vai dando segundas chances aos nossos pensamentos que começam correndo pelo significado de relação e continua pelo adultério. Sabemos desde o inicio do filme, quando os roteiristas estão criando Melinda, mostrando que tudo poderia ser pensado assim ou de outro jeito. Nós não temos segundas chances. Temos uma e uma vida. Não se prenda ao passado e viva o presente. Se a oportunidade de gostar de alguém e ver que este alguém também gosta de você. Deixe que outra pessoa lhe faça feliz também. A vida é curta e pode acabar a qualquer momento. Tudo depende de como você encara as coisas e assim elas podem ser engraçadas ou um martírio. Deixe-se ser mudado. Todos mudamos. Nossos corpos são feitos de água, e como tal, podemos nos adaptar a várias situações, basta querer. 


                Este filme é um filme muito madura quando aborda o tema relacionamento. Em suma o ser humano é mesmo face de uma mesma moeda. Tudo passa pelo nosso filtro personalidade, interesses e de acordo com cada um de nós, é que chegamos a um determinado local. Mas fica a mensagem de que devemos aproveitar os bons momentos. Valorizar o parceiro. Amar quem nos ama. Às vezes pagamos preços altos pelas nossas escolhas do calor do momento, e nos arrependemos depois. Temos que dar valor a algo que nos toca na alma, pois a vida é muita curta, com poucas possibilidades de escolha, e  por isso devemos sempre pensar em nós e no que nos faz be. A realidade é que ninguém completa ninguém, mas é maravilhoso a ideia de saber que alguém em algum lugar, seja longe ou do seu lado, pensa em você, lhe quer bem, e gosta de você, e pensar também que você gosta de estar com esta pessoa, que gosta de como ela é, que se preocupa com ela etc. A vida é curta e deve ser bem vivida. Não temos uma segunda chance. A vida pode ser uma comedia ou uma tragédia. A chance é agora. Faça acontecer.

Título Original: Melinda e Melinda
Título no Brasil: Melinda and Melinda
Ano de Lançamento: 2004
Direção: Woody Allen



2 comentários:

  1. Honestamente, para mim, depois de Radio Days, essa é a melhor produção de Woody Allen! Como você bem apontou: a história é praticamente a mesma, mas são as nuances entre as duas histórias que realmente o tornam um grande filme. Já li bastante que Rhada Mitchell não se sustenta ao longo do filme, afirmação da qual discordo, pois creio que o empenho da atriz é fundamental para o bom resultado do filme. Gosto dessa brincadeira com a vida - vale enxergá-la através de qual vertente: a dramática ou a cômica? Para mim, um bom filme e, um elogio a você agora, uma excelente resenha que aborda bem a questão psicológica do filme que, a meu ver, quase extravasa a psicologia e chega na ontologia.

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  2. Fico muito feliz que tenha gostado. Apesar de receber alguns recados dizendo que este é o pior filme dele, eu achei de um tremendo talento e visão, criar este filme. Claro que não acho a atuação da atriz digna de um oscar - deixo a escolha para os realmente profissionais - mas acho que a atuação dele foi sensacional. Acho justamente que a atuação dela não se sustenta, porque ela faz uma evolução durante o filme. A Melinda "drama" vai ficando mais "doente", vai se auto destruindo; Já a Melinda "co´media" vai com o passar do tempo meio que se auto descobrindo, amadurecendo. Obrigado por ter comentado. A construção das duas histórias é que não se sustentaria se a atuação da atriz não sofresse uma evolução ao longo do filme. Obrigado pelo comentário.

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